Um contrato de modelo internacional decide quanto sobra pra você no fim de uma temporada de 90 dias. A linha que mais pesa nessa conta quase nunca é o valor da garantia. É a preposição que diz de onde saem as despesas.
Abaixo estão os 12 pontos pra ler antes de assinar, na ordem em que aparecem no papel.
Antes do dinheiro: quem assina e por quanto tempo
1. O nome no cabeçalho. A agência que você conhece pelo Instagram nem sempre é a empresa que assina. Na China é comum o contrato sair com uma razão social sediada numa cidade diferente da que a agência mostra. Isso dá à agência o direito de te mandar trabalhar em outra cidade sem renegociar nada. Leia o cabeçalho e confira se a empresa, a cidade e o país batem com o que te disseram.
2. O prazo, lido duas vezes. Um defeito aparece em contratos de agências que nem se conhecem: o mesmo documento cita 90 dias numa cláusula e 180 em outra. Às vezes é mais sutil, e a palavra "Term" significa o período do visto num parágrafo e um ano com renovação automática em outro. Procure o prazo em pelo menos dois pontos do texto e compare com a data do visto ou do work permit (a autorização de trabalho). O visto mostra o prazo que a agência de fato processou.
3. Exclusividade e território. Contrato de temporada costuma valer só pro país da agência. Desconfie quando um contrato local fala em exclusividade "worldwide" (no mundo inteiro), ou quando o território junta vários países que ninguém mencionou na conversa.
O que ler num contrato de modelo internacional antes de falar de valor
4. Renovação e rescisão. Renovação automática não é problema por si só. O problema é a rescisão assimétrica: a agência pode sair com aviso curto, e você só sai declarando aposentadoria ou cumprindo um prazo longo. As duas portas de saída precisam ter tamanho parecido.
5. Não concorrência. Uma cláusula que te impede de trabalhar com outra agência do mesmo país depois do fim do contrato é comum. Acima de 12 meses ela fica pesada. Se vier junto de uma multa fixa alta, pergunte antes de assinar.
Garantia, despesas e o saldo do fim da temporada
6. A garantia é piso líquido? A garantia é o mínimo que você leva da temporada. O jeito certo de ler é este: você trabalha, fica com o seu split (a sua parte do valor do trabalho), as despesas saem desse split, e se o que sobrou ficar abaixo da garantia, você recebe a garantia. As despesas não furam o piso. Só que isso é como o mercado costuma funcionar, não uma frase que te protege. Se o contrato não disser que a garantia é líquida, pergunte por escrito.
7. A preposição das despesas. Leia exatamente onde a despesa é descontada. "Deducted from the model's statement" ou "from earnings" quer dizer que sai dos seus ganhos, e a garantia fica intocada. "Deducted from the guarantee" quer dizer que sai do seu piso. São duas contas diferentes, e o contrato pode usar as duas pra itens diferentes, como o visto e os dias de doença. Leia a preposição, não o tom do parágrafo.
8. A lista do que é adiantado. Apartamento, transporte, pocket money (a mesada semanal pros gastos), passagem, visto, testes, material. Pra quem se muda de país, a agência adianta tudo isso e desconta depois. Um contrato real que lemos este ano trazia apartamento a 5.500 RMB por mês, transporte a 3.000 por mês e 400 de pocket money por semana. Pocket money parece benefício, mas é adiantamento: volta como desconto. Some a tabela inteira e veja quanto você precisa faturar só pra empatar.
9. O que acontece se a conta fechar negativa. Em contrato sem garantia, procure a cláusula do fim da temporada. Algumas dizem que, se os seus ganhos não cobrirem os adiantamentos, a diferença vira uma conta que você paga em 30 dias. Outras não dizem nada, e o silêncio não te protege, só deixa o acerto na mão da agência. Adiantamento é o investimento da agência no seu potencial. Pergunte, com calma, como ela trata esse caso antes de assinar.
Os percentuais e valores variam conforme contrato e mercado. Estes são exemplos orientativos.
Comissão, pagamento e a moeda em que o dinheiro chega
10. Split, statement e prazo de pagamento. Confira o percentual da agência local (a do país onde você vai trabalhar), se o valor do job é bruto ou líquido, e quando o pagamento cai. Peça que o contrato preveja um statement discriminado, o extrato com valor do trabalho, comissão da agência e o líquido a pagar. Sem statement, você não tem como conferir a conta. A agência mãe (quem te descobre, orienta e coloca em outras agências pelo mundo) cobra 10% do valor bruto do trabalho. O caminho completo está em como a agência mãe é paga, e a faixa realista de ganhos em quanto ganha um modelo internacional.
Pagamento em yuan, euro ou dólar perde dinheiro na conversão se cair direto no banco tradicional. Muita gente da área recebe por uma conta multimoeda como a Wise, e o passo a passo está em como receber em moeda estrangeira sem perder na conversão.
As cláusulas que só aparecem quando dá problema
11. Medidas e marcas no papel. Muitos contratos asiáticos têm um campo de condição física: altura, medidas, cicatrizes, tatuagens, manchas. Se um cliente recusa você por algo visível, a agência usa esse campo pra cancelar a garantia. Preencha tudo, inclusive a cicatriz pequena que você acha que ninguém vê. Marca declarada fica bem mais difícil de usar contra você depois.
Vale também o contrário. Quando a agência avisa que uma tatuagem vai limitar trabalho e o contrato não tem garantia nem campo físico, a ausência do campo não é descuido: sem garantia, não há nada pra cancelar. Peça a marca descrita e aceita por escrito do mesmo jeito.
12. Confidencialidade, procuração e a versão revisada. Sigilo sobre valores é normal. Já uma cláusula que te proíbe, mesmo depois do fim do contrato, de qualquer ato contra a "honra" da agência, merece pergunta. Procuração irrevogável, que deixa a agência assinar e receber por você, é pesada demais pra assinar antes de pisar no país. E se chegar uma "versão atualizada" depois que você já assinou, compare linha a linha com a original. Já vimos uma garantia inteira sumir numa revisão que não avisou nada.
Uma regra fecha a lista: ninguém compra passagem, despacha bagagem ou paga nada antes de os dois lados terem o contrato assinado. Promessa por mensagem não substitui papel.
Por dentro da Cosmos
A Cosmos é uma agência mãe brasileira com base em Florianópolis (SC), que já trabalhou com mais de 50 agências na Ásia, na Europa e no mundo.
Nossa leitura de contrato geralmente segue quatro blocos: estrutura (quem, onde, por quanto tempo), dinheiro (garantia, split, adiantamentos), risco (multa, rescisão, cláusula vaga) e estratégia (o que aceitar, o que perguntar, o que explicar ao modelo). A leitura aponta tudo. O que vai pra agência é curto: perguntas pelos números que faltam e ajuste só na linha que realmente expõe alguém.
Muita cláusula dura só pesa se o modelo errar. Quando aplicável, essas ficam no texto e viram explicação antes de assinar, em português, sem juridiquês. Contrato bom não é o que não tem cláusula dura. É o que você entende inteiro antes de assinar.
Se você está decidindo o próximo mercado, comece por o guia de como ser modelo internacional, e entenda o papel de quem lê esse contrato com você em o que uma agência mãe faz. Pra quem quer ver como o mercado se organiza do lado de quem defende o modelo, a Model Alliance reúne material sobre direitos de quem trabalha na moda.
Ainda sem agência mãe pra ler contrato com você? Envie seu material pelo Seja Descoberto e a equipe da Cosmos avalia o seu perfil.
Perguntas frequentes
Pode, e agência séria não se ofende com pergunta. O que funciona é pedir pouco: os números que faltam (garantia, despesas, statement) e o ajuste na linha que realmente pesa. Lista longa de exigências costuma travar a conversa.
Depende do texto. Os gatilhos mais comuns são medida diferente da declarada, marca física não informada e condições de desempenho escondidas, como um mínimo de trabalhos nas primeiras semanas. Garantia combinada por mensagem precisa aparecer igual no contrato final.
Que a garantia é paga independente de quantos trabalhos você fizer, sem mínimo de desempenho. Não tem relação com condição física. Mesmo assim, confira se outra cláusula do mesmo contrato não cria esse mínimo por outro caminho.
Em muitos contratos, sim, como adiantamento descontado depois. Veja se o desconto sai dos seus ganhos ou da garantia. Se você vai pra China, o processo está em como funciona o visto Z.
Requisitos de visto mudam. Consulte sempre a embaixada ou consulado do país de destino para informações atualizadas.
Este conteúdo é informativo. Consulte sempre a sua agência e, quando necessário, um advogado especializado.